Crônicas de um pai 

Meu filho esperneava tanto em meus braços. Foi no mesmo dia em que eu e minha esposa saímos para uma palestra no Masp (Ted Talk Dia das Mães) cuja experiência narrei aqui em outro post.

Alan teve tantas experiências visuais naquele dia, e quando chegou em casa após uma soneca no carro, agora acolhido em meus braços começou a espernear loucamente. O choro… bem, não era o mesmo choro da fome e dos desejos de sobrevivência. Ele chorava por outra coisa.

Já tivera outras ocasiões, faz pouco tempo em que esticando seu corpinho minúsculo de três meses, parecia querer pular fora do meu colo. Da primeira vez fiquei intrigado. E tudo se resolveu na fome apaziguada e sono. Hoje repetida a experiência vejo outra coisa pelos olhos de outro alguém. Foi a pediatra quem disse “esperneia? é tédio! frustração”. Ainda mais intrigado, subitamente foram os meus olhos que mudaram; realmente ele chorava de tédio.

Após tantos estímulos visuais, tanta gente colorida, tecidos, luzes (também as dos freios), reflexos e espelhos d’aguas; fosse década de 80 haveria também os néons; após tanta atividade se contentar com aquele mobile e seus três penduricalhos na sala de casa… ah, meu amigo é pedir demais!

Ele queria mesmo continuar a ver coisas e mais coisas, que fossem as mais diversas. Botando em prática essa teoria do tédio, sem reorientar a bússola ao peito, fui girar pela casa a procura de coisas nuncas vistas por nós dois.

Dito e feito! No primeiro objeto ignorado manteve os olhos fixos uns dez minutos, eu diria. E mais outro objeto, outro objeto, e outro, assim sucessivamente, o tempo escorrendo​ todo o seu interesse. Esperneios desapareceram, e não queria dormir. Muito o contrário queria se esbaldar na agitação: mãozinhas inquietas, pescocinho virando para todos os lados, olhares atentos.

Mas é claro, bebês uma hora cansam. E nessa idade o choro do sono é inconfundível. Mas dessa vez não chorou. Os olhos foram cessando a atividade, como se buscassem vazios existenciais. Olhava para o nada, profundamente blazé. E é claro caiu no sono.

Essa experiência me fez pensar no quanto nosso olhar de pai quer repousar em nossos filhos como se fossem os mesmos a cada instante em que crescem, quando estão em processo de mudança, a serem outros; estão crescendo, desenvolvendo novas relações com o mundo; um mundo que a cada momento se apresenta como outro.

Quando a pediatra disse que “tédio”, e eu aqui pensando “fome, fralda, sono” (FFS) não percebi que estava interpretando a linguagem de meu filho através de lentes desfocadas. É dizer “fome, fralda, sono” seguem como necessidades fundamentais a ele, mas agora não se trata somente isso. Ele quer ver e olhar, desejar reconhecer o mundo. E nisso ele muda, porque a vida é isso mesmo um grande e estendido processo de mudança. Interessante, para mim, foi notar como tive que olhar meu filho através de um olhar alheio, alguém a me dizer “perceba! ele está crescendo!”

Um comentário em “A idade do tédio

  1. Mais um grande artigo, André. A Melina também tem fases que quer ficar brincando o tempo todo e esperneia, assim como o Alan. A questão é que como pais, nossa função também é dizer que passou a hora de brincar e é hora de dormir. Cada dia muda uma coisa. Ela tem acordado por volta das 3 horas da manhã, quando cinco minutos de colo não bastam, acabamos a colocando na nossa cama. Ela entre nós. Cada um vira para um lado e deixa ela lá, quase que dizendo “vamos brincar!!!!”. E nós, meio que falando no silêncio: “Nós vamos dormir, se quiser ficar acordada, fica aí, só não vai sair da cama”. =)

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s