Quando vejo meu filho recostado no peito de minha esposa, dormindo um sono feliz que só os bebês sabem ter, vejo em seu rosto toda aquela felicidade sonhada para sempre, leve como cristal, que tanto inventamos para revestir de simplicidade as nossas vidas inquietas. Vê-lo dormindo tão doce e calmo aquece o coração tanto que só nos resta compartilhar desse estado de plena felicidade enquanto permanecermos em vigília. Sou eu sonhando por ele como somos feitos de uma só vida. Nosso filhinho é uma mistura nossa sonhada em tempos passados (anteriores) que já não sabemos dizer quando se foi. É como se num dia muito distante, perdido entre fábulas e mitos, tivéssemos sonhado com este momento, nas asas de um anjo, e agora tudo tão longe experimentássemos como parte de uma conseqüência lógica e comum. Chegamos a pensar com certa naturalidade que nosso momento de ser feliz enfim chegou de modo mais brando e suave possível. E se fôssemos considerar todos os percalços anteriores ao seu nascimento, tal lembrança nada mais seria do que ensombrecer uma história linda com trechos e atribulações de duas vidas esquecidas, cujos sentidos é terem sido tão exageradamente grandes os seus problemas. Nascer provoca essa mágica de transformar sombras em luz; e toda vida anterior se abre, se ilumina e transforma quem a vive em mais do que se imaginou ser possível. Nosso filho é a mais do que a luz de nosso presente. É a concretização de um caminho natural e progressivo que, em nossas inquietudes, desconfiávamos sem razão se existiria além de nós. A luz calma que emana agora de seu rosto apoiado no peito de minha esposa é a presença da felicidade, esse estado de calma serena que nos preenche de todo sem mais.

Certo dia, aludimos à vida anterior, casados e sem filhos, como uma espécie de estágio preparatório para sua chegada. Mas isso foi inexato. Alan nasceu de outras circunstâncias, destacadas de qualquer processo que inventamos para justificar dias anteriores. Ele veio quando cresceu em nós um sentimento de esperança, de dias vindouros, onde nossos anseios e objetos de conquista pessoal se tornaram como que cães de palha. Não mais desejo, nem medo. Quer dizer, tudo aquilo que nos era a um só tempo desejável e assustador – dinheiro, reconhecimento, posição – já não nos assusta mais. Somos três, e somos um; feitos de uma matéria simples de amor. O presente em nossos corações transborda ao passado, e preenche todos aqueles cantos solitários de antes, aquece nossa casa, e nos diz quem somos nós, vivendo em três, e também um.

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