Primeiro filho. Tosse e febre veio de madrugada; nem tão alta quanto nossa preocupação. Não dormimos. A pediatra orientou ibuprofeno 100mg (uma gota por quilo), e nebulização com soro fisiológico e chá de salvia para tosse. Dia seguinte, cansadinho brincava e chorava alternadamente. Na segunda noite novamente tosse, cheia, e febre. Repetimos o procedimento, mas notamos a respiração acelerada. Pela manhã, no whatsapp, enviamos um vídeo à pediatra que respondeu «corre para o hospital. O bebê está com falta de ar». Dado o alerta corremos.

No hospital aquela burocracia, protocolos e condutas de sempre. Antes de tudo o puseram no soro, já prescrito antibiótico na sequência (Rossefin). Para isso tiveram que inserir um acesso na veia do bracinho. Que sofrimento! Por sorte uma das enfermeiras, habilidosa, pegou na primeira. E logo veio a médica plantonista, jeito de mãe, bem simpática, solicitar raio X. Não havia nada. Insistiu e solicitou exame de sangue; leucócitos um pouquinho alterados; interpretou como sinal de infecção, e quis exame de urina por sonda para ampliar o espectro da investigação já iniciada.

Colher exame de urina em bebês é aflitivo tanto para o bebê como para os pais. Segurar os dois bracinhos numa mesa, quase de cirurgia, enquanto duas pessoas estranhas introduzem um caniço de silicone no orifício minúsculo de um órgão que mal se desenvolveu é de inquietar; pior sem saber o grau do incômodo, afinal, no choro tudo se confunde. Resultado foi negativo. Daí a explanação rotineira «os exames estão normais. Mas como há uma leve alteração nos leucócitos vamos classificar como infecção de foco indeterminado. E vou pedir a internação, como medida preventiva». Quando ouvi “internação” o mau humor veio a pele. Questionei a necessidade daquilo.

– É o protocolo. Chegou prostrado, ofegante e com febre, não podemos deixa ir sem melhorar o quadro assim como os exames.
– Mas o pulmão está tudo certo, não? E essa respiração alterada é o que?
– A secreção no nariz o deixa mais ofegante. Em todo caso, ainda assim, ele está com sintoma respiratório. Embora não haja nada no pulmão precisamos observar.

Neste meio tempo enfermeiras vieram dizer que não havia vaga no hospital, e por isso ligariam para os mais próximos, providenciando a transferência. Novo desespero abateu sobre as nossas cabeças, no que a médica plantonista nos tranquilizou.

– Calma! Vou conversar com a enfermeira chefe. E assim conseguimos uma vaga.

Pais desesperados, na falta de critérios prévios ou protocolos parentais de saúde, não pensam, reagem. Foi o que fizemos. No hospital desde às 8 da manhã, atravessando o meio da tarde sem uma migalha de comida no estômago, vencidos pela desinformação e cansaço, demos entrada na internação e subimos ao quarto às 17 horas.

Lá em cima a febre desapareceu e os sintomas diminuíram. Chegamos a especular se o antibiótico surtira efeito tão rápido. Um dos médicos desconfirmou essa hipótese «normalmente leva 48 horas». E ficamos sem saber se ele melhorou porque era o processo natural do corpo ou se uma das três coisas (soro, antitérmico, antibiótico) o havia restaurado. Não soubemos. Ainda assim, minha esposa dormiu uma noite com ele, e no dia seguinte mais uma picada intramuscular de antibiótico. Já próximo ao horário de almoço um novo pediatra, descolado e desligado, veio nos dizer «estou vendo que ele está bem. Vou dar alta com prescrição de antibiótico para oito dias: novamox. Observe: alta em 24 horas!

Ainda sobre efeito do dia anterior, após a alta, fui à farmácia, pensando com minha esposa, conforme a orientação geral, segundo o que uma vez iniciado o tratamento com antibiótico não se deve interrompe-lo. Em casa abro a caixa e constato lendo a bula que o pediatra havia prescrito a dose máxima, equivalente a uma criança de 13 quilos, ou um bebê com até 6 quilos (como meu filho) com infecção grave. Foi o suficiente para quebrar o feitiço. Onde estava aquela infecção grave num bebê que engatinha, sorri, age com plena desenvoltura e naturalidade como se nada houvesse acontecido? O nariz ainda escorria, mas era tudo.

Toda a rotina hospitalar é de extremo desgaste para os bebês. Coleta de exames em mesas de metal, imobilizados por pesadas mãos, picadas e prensas para medir pressão; o instrumental, embora aplicado para servir aos propósitos das práticas de saúde institucionais, não deixa de agredir os corpos e os sentimentos alheios. Cada ferramenta empunhada na manutenção dos protocolos é irrefletida quanto a fragilidade dos pais. Enfermeiros e enfermeiras de emergência, em meio a toda perícia necessária, numa pediatria hospitalar, tentam fazer tudo de forma tranquila, calma, preenchidos de alguns mimos. Digno de apreço. Entretanto, sob a fria rotina, é muito pouco: desaparece nas assertivas e condutas técnicas, em que não se oferecem alternativas a não ser a de se sujeitar (os pais) de corpo e alma.

O dia seguinte: de madrugada levanto da cama com calafrios enquanto a noite segue abafada pelo sol abrasante dos dias secos dos lados de cá do planalto. “Renite alérgica? Será?”. Penso, deitando após tomar um antialérgico. Dia seguinte, minha esposa prostrada sente os mesmos calafrios, como eu agora também prostrado; ambos com febre, corisa e tosse. E acima de tudo prostrados! Fiquei pensando que seria se me levassem ao hospital nessas condições, me espetassem, introduzissem uma sonda em meu órgão genital, fizessem me deitar numa mesa metálica e fria pra tirar chapa, me chapassem de antibiótico, impedindo-me de deixar o hospital. O que eu faria? O que você faria?

Sentir na pele o que meu filho passou, embora algo corriqueiro e expresso na famosa frase «deve ser virose», como pais e cuidadores, nos fez pensar:  o cuidado com os nossos filhos começa na própria relação com o corpo, nas medidas e critérios próprios para tomadas de decisão em horas de nervoso. Para que a responsabilidade frente ao cuidado das nossas vida seja sempre nossa.

 

 

2 comentários em “Nervoso de pai

  1. Lembro a primeira vez que a Melina teve uma febre mais forte. O pediatra receitou um anti-térmico se a temperatura passasse dos 38˚, sempre esperávamos chegar ao limite para poder ministrar o remédio. Tentamos sempre dar a chance do corpo se recuperar sozinho, mas a ansiedade e preocupação estão sempre presentes, ainda mais sendo pais pela primeira vez.

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